Depressão e tratamento homeopático - Artigo publicado na revista Leve e leia - Edição Dezembro/Janeiro 2020
Depressão e tratamento homeopático.
Sobre o significado e o valor das coisas. Sobre atitudes.
“Ainda quando eu falasse todas as línguas dos homens e a língua dos próprios anjos, se eu não tiver caridade, serei como o bronze que soa e um címbalo que retine; ainda quando tivesse o dom de profecia, que penetrasse todos os mistérios, e tivesse perfeita ciência de todas as coisas; ainda quando tivesse a fé possível, até o ponto de transportar montanhas, se não tiver caridade, nada sou (...) a caridade é paciente: é branda e benfazeja; a caridade não é invejosa; não é temerária, nem precipitada; não se enche de orgulho; não é desdenhosa; não cuida de seus interesses; não se agasta, nem se azeda com coisa alguma; não suspeita mal; não se rejubila com a injustiça, mas se rejubila com a verdade”.
(S.Paulo, 1ª Epístola aos Coríntios)
A palavra política tem sua origem no grego politikos, que significa “cívico”. O termo politikos, por sua vez, deriva da palavra polites, que quer dizer “cidadão”, que se originou de polis, traduzido por “cidade”.
Na sociedade grega, os politikos eram aqueles que se dedicavam ao governo da polis, colocando o bem comum acima dos interesses individuais.
Platão, filósofo grego, assim classificava as possíveis formas de governo (as definições são do dicionário Michaelis on line):
1) Democracia: Sistema político influenciado pela vontade popular e que tem por obrigação distribuir o poder equitativamente entre os cidadãos, assim como controlar a autoridade de seus representantes.
2) Aristocracia: Sociedade politicamente organizada em que o controle estatal é privativo de uma camada social privilegiada, composta de nobres cujo monopólio do poder pode ser eletivo, quando a escolha de seus membros se faz no interior dessa mesma classe, ou hereditário, quando a sucessão política exclui todos os que dela não descendem, ficando, neste último caso, concentrado nas mãos de uma ou de várias famílias.
3) Monarquia: Sistema político de governo em que o poder supremo está nas mãos de um monarca, cuja posição, fundamentada na tradição e na autoridade divina, é geralmente hereditária, através dos descendentes do sexo masculino.
Ou:
4) Anarquia: Estado de um povo em que o poder governamental, de onde emana o equilíbrio da estrutura política, social e econômica, de fato ou virtualmente, desapareceu;
5) Oligarquia: Regime político em que o poder é comandado por um número restrito de pessoas que pertencem a um mesmo partido, classe ou família; Preponderância de um pequeno grupo ou facção no exercício do poder, especialmente para governar conforme seus interesses.
6) Tirania: Governo cujo poder não é limitado por lei ou constituição; Governo legítimo, mas que não respeita os direitos dos cidadãos.
As três primeiras, "saudáveis” e as três últimas, como suas respectivas “degenerações”.
Agora mudemos o foco para o polites. Para nós mesmos e como entendemos, valorizamos e interagimos com o mundo à nossa volta, com o ambiente e com o próximo.
Walter E. Maffei, patologista brasileiro, assim define como entendemos e valorizamos nosso entorno: “A inteligência nos permite conhecer a realidade das coisas, traduzindo os seus diversos aspectos por meio das representações internas, que são símbolos dos fenômenos externos, reproduzidos na sua sequencia histórica e classificados em ordem lógica; em outras palavras, constitui o espelho dos objetos e dos fatos como eles são. A afetividade os indica à consciência pelo valor que eles nos custam em sofrimento. Por exemplo, é um fato de todos conhecido o quanto nos aborrece e entristece perdermos ou quebrarmos determinado objeto, às vezes mesmo sem valor intrínseco, mas que tinha certa significação em nossa vida. Por conseguinte para que a descriminação dos fatos e objetos tenha utilidade na nossa vida, não é suficiente que eles sejam figurados na consciência simplesmente como dados dos sentidos e como representações, mas é necessário que, além disso, nos despertem prazer ou sofrimento”.
O mesmo autor, versando sobre a vontade: “é a função psíquica que determina a finalidade de cada um dos atos da nossa vida, assim como os meios necessários para atingi-los. Ora, como todos os atos da nossa vida são reações às sensações determinadas pelo mundo que nos cerca, compreende-se que o ato seja o mais complexo dos fenômenos psíquicos, porque pressupõe imagens, idéias e motivação afetiva, sem as quais é impossível a sua manifestação”.
Grosso modo, seria como pintarmos um quadro. As formas, a proporção e a perspectiva seriam dirigidas pela inteligência; as cores, as tonalidades utilizadas e a “luz” podem “impregnar” os objetos com um valor extrínseco a eles; a vontade seria a finalidade da obra. Para que e por que pinta-lo. Claro que forma e proporção podem denotar valor, pode-se escurecer algo no centro do quadro para dar um destaque obscuro ao motivo principal, etc. Na vida estas três funções psíquicas funcionam em conjunto.
Durante as diferentes fases de nossa vida focamos nossas energias para objetos e objetivos diversos. Vamos nos nutrir um pouco mais neste outro trecho de Maffei: “Na criança faltam os sentimentos sociais, devido à sua inexperiência da vida e a sua afetividade é apenas inspirada pela necessidade direta e urgente de proteção passiva; na adolescência, o aparecimento dos sinais da sexualidade desenvolve os sentimentos de amor próprio, de ambição e dos ideais inferiores do misticismo romântico e religioso, ao mesmo tempo que se diferenciam as qualidades inerentes a cada sexo – o virilismo no homem e a vaidade na mulher; a idade adulta disciplina os reflexos morais da sexualidade, favorecendo as paixões mais úteis e mais harmônicas com os interesses ordinários e duradouros do organismo; a idade madura freando as fontes mais vivas dos sentimentos, elimina as exuberâncias perturbadoras, o que determina maior serenidade do caráter e, finalmente, na velhice geralmente esse estado se firma ainda mais.”
Do hedonismo infantil (em que o prazer e a satisfação de suas necessidades são o único ou principal bem da existência), passando pela sexualidade, vaidade e virilidade na adolescência, conseguiríamos chegar à empatia e a caridade na maturidade. O desenvolvimento físico atinge um ápice no adulto jovem e entra em declínio. O psiquismo continua seu desenvolvimento.
Com o decorrer dos anos, lesões podem impedir que a saúde física retorne a sua plenitude. Psiquicamente pode-se e deve-se continuar evoluindo. Experiência de vida e maturidade são necessários a entendimento, compreensão, e atitudes mais justas.
Para o tratamento homeopático, a cura é que cada ser atinja “seus mais altos fins da existência”.
Favorecer e auxiliar o amadurecimento de indivíduos psiquicamente é inerente ao tratamento. Inclusive em atitudes mais corretas e visando menos interesses e necessidades apenas individuais (não as excluindo), pois é o que se espera da função psíquica volitiva na madureza e senectude. Não por um julgamento moral.
Samuel Hahnemann, fundador da Homeopatia, inicia o prefácio de seu livro Doenças Crônicas desta maneira: “Se eu não soubesse para que fim fui posto aqui na Terra − “para tornar-me melhor tanto quanto possível e tornar melhor tudo que me rodeia e que eu tenha o poder de melhorar”.
Assim, aos seres que conseguirem atingir uma maturidade psíquica adequada, cabe a responsabilidade de orientar aqueles de seu círculo, maior ou menor, aos valores e atitudes corretos. Principalmente através de seus exemplos. As três formas de governo saudáveis e degeneradas de Platão não refletem a maturidade e a imaturidade de seus dirigentes e da coletividade por tê-los escolhidos, ou simplesmente ter permitido que governem?
Fato que isto não resolverá todos os casos de depressão, mas um coletivo (família, bairro, cidade, país, etc) mais equilibrado e justo pode e deve diminuir a incidência e a manifestação de sintomas em indivíduos predispostos. A organização coletiva atual, seus valores cultivados e imaturidade constituem um fator de agravo à saúde.
Segundo Folha informativa da Organização Panamericana de Saúde – Brasil, a depressão é um transtorno mental frequente. Em todo o mundo, estima-se que mais de 300 milhões de pessoas, de todas as idades, sofram com esse transtorno. A condição é diferente das flutuações usuais de humor e das respostas emocionais de curta duração aos desafios da vida cotidiana. Especialmente quando de longa duração e com intensidade moderada ou grave, a depressão pode se tornar uma crítica condição de saúde. Ela pode causar à pessoa afetada um grande sofrimento e disfunção no trabalho, na escola ou no meio familiar. Na pior das hipóteses, a depressão pode levar ao suicídio. Cerca de 800 mil pessoas morrem por suicídio a cada ano, sendo essa a segunda principal causa de morte entre pessoas com idade entre 15 e 29 anos.
A carga da depressão e de outras condições de saúde mental está em ascensão no mundo.
A depressão é resultado de uma complexa interação de fatores sociais, psicológicos e biológicos. Pessoas que passaram por eventos adversos durante a vida (desemprego, luto, trauma psicológico) são mais propensas a desenvolvê-las . A depressão pode, por sua vez, levar a mais estresse e disfunção e piorar a situação de vida da pessoa afetada e o transtorno em si.
Há relação entre a depressão e a saúde física; doenças cardiovasculares, por exemplo, podem levar à depressão e vice-versa.
Segundo a décima versão do Código Internacional de Doenças da Organização Mundial de Saúde e da quarta edição do Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais da American Psychiatric Association, os critérios diagnósticos de depressão são:
Sintomas psíquicos:
- Humor depressivo: sentimentos de tristeza, autodesvalorização, sentimentos de culpa e ideação suicida
- Anedonia: redução ou ausência da capacidade de experimentar prazer na vida, mesmo em atividades preferidas
- Redução da energia: sensação de “bateria descarregada”
- Diminuição na capacidade de pensar, de se concentrar ou de tomar decisões
Sintomas fisiológicos
- Alterações do sono: tipicamente, insônia intermediária (acordar no meio da noite e ter dificuldade para voltar a dormir) ou terminal (despertar mais cedo do que o habitual), acompanhada de piora matinal do humor, ou seja, o indivíduo sente-se mais deprimido pela manhã e melhora no decorrer do dia. Na depressão atípica, ocorre com frequência a hipersonia – sonolência excessiva, inclusive durante o dia.
- Alterações do apetite: tipicamente, redução do apetite; nas depressões atípicas, o apetite pode estar aumentado, muitas vezes com compulsão por doces e chocolates.
- Redução do interesse sexual
Alterações de comportamento:
- Retraimento social
- Crises de choro
- Comportamento suicida
- Retardo psicomotor e lentificação generalizada; ou agitação psicomotora
Verificamos pela lista de sintomas acima listados, que na depressão afeto, pensamento e vontade podem estar alterados. O principal e característico recaindo sobre o afetivo.
O tratamento tradicional farmacológico é mediante medicamentos antidepressivos, cuja escolha obedece a critérios clínicos e prescritos por psiquiatra. O acompanhamento com psicólogo é importante. Previne recidiva e é um tratamento individualizado.
No tratamento homeopático, há uma “ordem correta” para a melhoria dos sintomas. Quando físicos, as desordens dos órgãos mais nobres devem entrar em equilíbrio antes dos periféricos. Por exemplo, em um paciente com asma, rinite e dermatite atópica, por exemplo, a ordem correta é o alívio da falta de ar e chiado, depois da coriza e espirros e por fim, da erupção na pele. Afinal, insuficiência respiratória pode levar a óbito. Coriza ou prurido apesar de incomodarem são compatíveis com a vida.
No psiquismo, a ordem correta é que, quando existam, as desordens afetivas melhorem antes das cognitivas (do intelecto, como o aprendizado e a memória) e estas antes das volitivas (da vontade). As duas últimas funções psíquicas foram possibilidades proporcionadas principalmente pelo córtex cerebral e graças a elas a humanidade evoluiu tecnologicamente, mas sem a afetividade tudo isto perde a finalidade. Ou melhor, a finalidade pode perverter-se, e sofre tanto o indivíduo como a coletividade.
Privilegiando o desenvolvimento psíquico desta maneira, auxilia na formação de melhores polites, com melhor capacidade de entendimento, julgamento e atitudes. As Pólis são constituídas pelos seus cidadãos.
Eduardo N. Takeyama, médico Homeopata, membro do Instituto Hahnemanniano George Galvão. Av Angélica, 2491, Espaço Livance, 9o andar Telefone: 3230-4730 Whatsapp: 11 95325‑9742