Homeopatia na melhor idade - Artigo publicado na revista Leve e Leia - edição Agosto/ Setembro de 2019
Homeopatia na melhor idade
“Nós os mortais, bons e maus, julgamos alcançar o que esperamos;
Sobrevém no entanto a infelicidade e nos lamentamos.
O enfermo espera obter a saúde, e o pobre, a riqueza. Todos se empenham por alcançar dinheiro e bens, cada um a seu modo: o comerciante e o marinheiro, o camponês e o artífice, o cantor e o vidente.
Mas, ainda que a preveja, este não consegue afastar a desventura, quando ela vem.
(...) Em todos os trabalhos há perigo, ninguém sabe
como se deve parar o empreendimento iniciado;
mas aquele que tenta agir bem, sem pensar,
cai em grande e terrível desgraça,
e ao que age mal, a divindade concede-lhe em tudo
boa sorte, libertação de sua loucura.”
Sólon
Frequentemente se é exposto a eventos previsíveis ou contingenciais. Circunstâncias individuais ou coletivas a que se está sujeito durante a vida. Nascimento e morte, crescimento e envelhecimento, doenças e curas, novos empregos e demissões, sucessos e fracassos, desejos realizados e frustrações. Experiências se acumulam. Caráter e personalidade vão se formando, conforme constituição e temperamento interagem com o que ocorre no meio ambiente.
Horizontes se alargam conforme se cresce e envelhece, e a exposição a estes fatos aumenta.
Em certas fases da vida, novas situações surgem com uma frequência maior, como que em ondas. Um exemplo disto no sexo feminino é a idade em que ocorre o climatério. São comuns sintomas como fogachos, alterações do sono, mudança de humor, diminuição da libido, atrofia dos órgãos genitais; mudanças no cotidiano, como a presença do companheiro em tempo quase integral no mesmo ambiente, filhos casados que deixam os netos para serem pajeados. Preocupações com familiares que adoecem ou perdem o emprego também podem perturbar o psiquismo. Um turbilhão de mudanças e exigências contrariam a expectativa de uma maturidade e senectude tranquilas, onde “se poderia colher os frutos dos esforços feitos durante a vida”.
Interroga-se a melhor maneira de lidar com esses acontecimentos, já que o destino muitas vezes parece escolher aleatoriamente exitosos e derrotados. O fato de se ter tentado levar uma vida ética e moralmente justa, ter se atentado aos cuidados com a saúde mental e física, diminui a probabilidade, mas não isenta nenhum ser humano ao risco de ser surpreendido por uma doença ou problemas sociais e financeiros.
Esforços para prolongar a juventude e diminuir sintomas com cirurgias plásticas, reposição hormonal, carga excessiva de atividades físicas, por exemplo, são eficientes durante um tempo limitado, mas adiam a adaptação a este estágio da vida e não são isentos de efeitos colaterais.
”Veritas est adaequatio intellectus et rei”
(A verdade é a adequação entre o intelecto e as coisas)
São Tomás de Aquino
É mais eficaz lidar com os limites físicos, as doenças e e as necessidades afetivas e cognitivas que surgem. Conformar-se com possíveis dores e reduzir a carga nas atividades físicas (importantíssimas para um envelhecer saudável), organizar-se para tomar medicamentos e consultar um profissional logo que surgirem novos sintomas, manter uma vida ativa e fazer uma boa higiene mental (com a ajuda de um terapeuta, se necessário) acelera o processo de adaptação a esta nova realidade.
Enxergar uma finalidade em todos os acontecimentos da vida (inclusive nos contingenciais, não programados) torna-se uma ferramenta eficaz na adaptação física e psíquica. Montaigne nos faz refletir a este respeito no texto abaixo, extraído de seus ensaios, quando reflete sobre a afeição dos pais pelos filhos:
“Se existe uma lei realmente natural, isto é, um instinto que seja universal e perpetuamente gravado nos animais e em nós (o que não deixa de ser controverso), posso dizer que, a meu ver, depois do cuidado que cada animal tem com sua preservação e de fugir do que o prejudica, o segundo lugar nessa lista é o amor que o procriador dedica à sua progenitura. E porque a natureza parece tê-lo nos recomendado, visando a propagar e fazer avançar as peças sucessivas dessa sua máquina, não é de espantar que, em sentido inverso, o amor dos filhos pelos pais não seja tão grande. Junte-se esta outra consideração aristotélica: quem faz o bem a alguém ama-o mais do que é amado por ele, e aquele a quem se deve ama mais do que quem deve, e todo operário ama mais sua obra do que por ela seria amado se a obra tivesse sentimento; porquanto damos valor ao fato de existir, e existir consiste em movimento e ação, e por isso cada um de nós existe, de certa maneira, em cada coisa que faz. Quem faz o bem exerce uma ação bela e honesta, quem recebe, exerce apenas uma ação útil. Ora, o útil é muito menos digno de ser amado do que o honesto. O honesto é estável e permanente, fornecendo a quem o faz uma satisfação constante. O útil se perde e escapa facilmente, sua lembrança não é tão fresca nem tão doce. As coisas que mais nos custaram nos são as mais queridas. E dar custa mais que receber.”
Moléstias que podem ser agravadas por excessos ou hábitos incompatíveis às mesmas também podem ser enxergadas como uma oportunidade de se educar e melhorar. Dieta adequada em caso de diabetes ou obesidade, exercícios feitos em intensidade, frequência e postura corretas no caso de problemas osteoarticulares, mudanças em pensamentos e atitudes no caso de depressão, transtornos de ansiedade, por exemplo. Estas mudanças benéficas nos hábitos de vida ainda trazem a possibilidade de se contagiar positivamente aos que estão próximos, gerando cuidado e proteção.
A adaptação à realidade forma mais eficazmente de maneira salutar nosso caráter e personalidade, afinal “nada acontece por acaso”.
"Cale-se, homem! Um fogo incendeia outro fogo;
Uma pena é minorada com o sofrimento de outra;
Roda até a vertigem e ficarás sereno em direção contrária.
Uma dor desesperada cura-se com outro languir
Apanha em teus olhos alguma nova infecção
E o violento veneno do mal antigo desaparecerá."
William Shakespeare
A Medicina Ocidental teve seu berço em Cós, com Hipócrates. Em seus escritos, o pai da medicina cita entre seus princípios de tratamento a lei dos contrários (Contraria Contrariis Curentur) e a lei dos semelhantes (Similia Similibus Curentur).
A lei dos contrários deu origem à medicina alopática. Etimologicamente, allós= outro, diferente + páthos= sofrimento. Assim, o termo correto para uma medicina que seguisse estritamente esta lei seria enantiopatia. A medicina tradicional moderna (corretamente chamada de alopática, pois não se utiliza apenas desta lei), foi sendo construída paulatinamente por Galeno, Harvey, Pasteur e muitos outros expoentes. Estudos sobre anatomia, fisiologia, patologia, microbiologia, farmacologia etc, formaram uma idéia do normal e do anormal ou patológico no ser humano. Conceitos importantíssimos, sobretudo porque a medicina deve basear-se em ciência. Mas que muitas vezes levam a uma rigidez terapêutica desnecessária e torna quase impossível a individualização na escolha do tratamento mais adequado para cada paciente.
A lei dos semelhantes originou a Homeopatia. "Redescoberta" pelo médico alemão Christian Frederich Samuel Hahnemann, ela constitui um dos pilares desta medicina. Visa estimular o indivíduo, através de medicamentos que provaram ser capazes de produzir sintomas semelhantes aos relatados, a reagir contra os mesmos, levando a melhoria destas queixas por intermédio de seus próprios mecanismos defensivos. Por utilizar estímulos medicamentosos sutis e valer-se do sistema de defesa dos próprios pacientes, a ocorrência de efeitos colaterais ou intoxicações são muito menores.
Hahnemann definiu outros princípios fundamentais ao sistematizar a Homeopatia. Deve-se , por exemplo, levar em conta a individualidade de cada paciente e ao mesmo tempo, enxerga-lo como um todo. Assim, uma mulher na fase do climatério que esteja com fogachos, problemas devido às mudanças na dinâmica familiar em sua casa, queda de cabelos e transtornos do sono, se manifestar tristeza e desejo de isolar-se, tomará um medicamento homeopático diferente de outra que se apresente com irritabilidade e agressividade. Valorizar a peculiaridade de cada experiência de vida e como se reage a elas durante a consulta, estimula o autoconhecimento, importantíssimo para uma boa higiene mental. Auxilia a se reconhecer fraquezas e virtudes e como se comportar melhor diante de situações. Em pacientes com gastrite, em outro exemplo, ajuda a elucidar quais alimentos fazem realmente mal ou não (evitando restrições desnecessárias). Na escolha medicamentosa, levando-se em consideração estes princípios, o ganho para a saúde muitas vezes é multiplicado, pois com um único medicamento a melhora pode apresentar-se no psiquismo, que muitas vezes pode agravar a queixa, e no próprio sintoma físico. Ou ainda há quem ignore que sistemas psíquico, neurológico voluntário, autônomo, endócrino e aparelhos respiratório, cardiocirculatório etc. interagem e sofrem influência uns dos outros constantemente?
O objetivo do tratamento homeopático é "que o indivíduo atinja seus mais altos fins", ou seja, visa auxiliar de maneira individual cada ser a alcançar o seu melhor possível em nível físico, psíquico e social. Leva em conta: hereditariedade, constituição, temperamento, hábitos, suas doenças, sua história e momento de vida para estimular seu sistema imunológico e sua psiquê a adaptar-se mais pronta e eficazmente ao que está gerando desconforto e moléstias, com o mínimo de transtornos e de maneira duradoura.
Eduardo N. Takeyama, médico Homeopata, membro do Instituto Hahnemanniano George Galvão. Av Angélica, 2491, Espaço Livance, 9o andar Telefone: 3230-4730 Whatsapp: 11 95325‑9742